Monday, April 23, 2012

Iraque, qual Iraque?

Fui convidada a integrar uma caravana internacional – composta por artistas dispostos a dar sua contribuição voluntária – para participar da Conferencia “Por quê teatro?”. Iniciativa que tem como objetivo incluir a questão cultural na discussão do re-desenvolvimento do Iraque.

O convite me despertou dezenas de perguntas, inquietações, preocupações e muita curiosidade. Pedi tempo pra pensar... e me perguntar qual seria a minha razão para integrar essa caravana voluntária rumo ao Iraque?

Iraque foi, e continua sendo, tema de muitas discussões acirradas. Verbalmente, sempre me posiciono com veemência, tenho opinião. De repente, aparece a oportunidade de ter um contato direto com a realidade, de contribuir de forma modesta, porém concreta, com a construção de um outro mundo possível. Encaminhei resposta positiva aos organizadores.

Sim, mas... Como, quando, com quem, por quanto tempo? Em qual Iraque?



No Iraque-Curdistão, que é Iraque e, ao mesmo tempo não é, conhecido como Região do Curdistão, com idioma próprio (curdo) e governo autônomo. Uma região que carrega traumas profundos, em especial, do período do governo Saddam Hussein (campanhas genocidas e utilização de armas químicas). Atualmente, a região é uma força econômica importante e constitui a área mais segura e estável do Iraque.

Primeira parada, Erbil. Capital da Região do Curdistão, que existe a cerca de 7 mil anos, estando ininterruptamente habitada. Mais que o triplo do tempo histórico do cristianismo. Entretanto, o caos urbano – carros particulares e taxis, e sem transporte público visível – ofusca essa perspectiva histórica.

No café com o grupo de conferencistas, uma das organizadoras, que estivera em Bagdá dias antes, comenta que testemunhou o primeiro ataque a bomba de sua vida. Conta os detalhes sobre o carro que explodiu. De repente, percebe que estou atenta à conversa, imediatamente me diz: mas não foi aqui na Região do Curdistão, foi no Iraque, distante daqui. E eu pergunto, a quanto tempo de distancia. E ela me da resposta que, pelo menos pra ela, parecia tranqüilizadora: uma hora daqui.

Quase ri... parecia conversa de carioca falando sobre a violência na cidade, onde é perigoso e onde não é.

Rumamos à cerimônia de abertura da Conferencia. Antes do evento, as diplomacias. Autoridades, autoridades-assistentes, chefes, assistentes dos chefes, jornalistas e equipe de apoio. Grande maioria composta por homens. Entre visitantes internacionais, somos quatro mulheres (Brasil, Uganda e Alemanha). Entre locais, uma mulher.

Inicia-se a cerimônia. Falas de abertura são pronunciadas e traduzidas por homens. Na platéia, homens, quase todos engravatados. Mulheres, algumas poucas. Fora as estrangeiras, três ou quatro. Meu constrangimento é visível...

Segue a cerimônia com a apresentação da performance produzida por artistas locais e dirigida por Jessica Khaawa (Uganda). A única mulher que se pronuncia na noite.

A conferencia está oficialmente aberta e programada para acontecer nas três províncias da Região do  Curdistão: Erbil, Dohuk e Suleymaniya. Formamos três grupos de conferencistas que se alternam nas províncias.

Meu grupo parte em viagem noturna de carro para Dohuk. Passamos por quase uma dezena de checkpoints, cada um com sua própria estratégia de controle, que varia dependendo da proximidade com os caminhos que seguem para o sul do Iraque. Alguma tensão nos acompanha. Minha experiência com checkpoints, na Palestina, e com blitz da policia, no Rio de Janeiro, me ajude a ficar tranqüila. Atenta, mas tranqüila.

No caminho, se nota a falta de vegetação. Mesmo com existindo rios e clima agradável, falta vegetação. Um colega comenta que na região existiam florestas como as do Irã, mas, por serem áreas de resistência dos curdos, foram exterminadas por Saddam. Em algumas áreas, se percebe o esforço de reflorestamento.

Chegamos a Dohuk, uma cidade em construção. Impressionante a quantidade de construções modernas. Muitos prédios de apartamentos. Amplas áreas com casas luxuosas, que revelam o alto nível econômico dos moradores. Tudo construído nos últimos cerca de 25 anos. Saímos de uma cidade de 7mil anos para uma recém criada, onde não parece faltar recursos. Não há nenhum sinal de guerra. Tudo parece novo. Diversos canteiros de obra, demonstram que é grande a expectativa de ampliação da população.

Primeiro dia de Conferencia. Estudantes da Universidade de Dohuk enchem a sala. No meu grupo de conferencistas: eu, um japonês e um alemão. Mais uma vez, a platéia é majoritariamente formada por homens. Dessa vez, jovens e sem gravata. Faço jogos de aquecimento, apresento a árvore do Teatro do Oprimido, e abro o debate com os estudantes.

No debate, são as mulheres que se destacam, as que querem saber, as que mais perguntam. No final, um rapaz se posiciona e expressa toda a sua desesperança em uma sociedade economicamente bem sucedida que se entrega ao consumismo fútil, entendendo-o como qualidade de vida. 

1 comment:

  1. como sempre adorei, imagems muito claras que tem vida na suas palavras! bjs

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